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O mal-amado

Foto do escritor: William Lira
William Lira
22 de out.
3 min de leitura

O berço do fascismo é o ressentimento, a mágoa não simbolizada. Pouco campo simbólico para perdoar ou simplesmente para “não levar pro coração”. Alguém tem que pagar pelos dias difíceis deles e por tudo o que não conseguiram realizar. Isso é o ressentimento: a principal matéria-prima do fascismo. E o quanto eles serão cooptados vai depender do quanto foram alienados pelo sistema. Porque justamente quando o sistema não dá conta de se sustentar — e isso acontece de tempos em tempos —, ele vai tentar cooptá-los para se salvar de um colapso. É aí que eles se revelam, pois uma onda fascista é um prato cheio para diluir muito ressentimento e dar algum sentido às suas vidas amarguradas. Uma vez diluída a mágoa, alguns até chegam a sentir o alívio da dor do arrependimento e tornam-se pessoas melhores. De alguma forma, elaboram-se. Como diria Freud, “a vida é uma grande análise”. Mas não era melhor elaborar essa merda num divã?


A euforia e a ilusão do pertencimento: a cooptação do ressentimento transformada em devoção coletiva.
A euforia e a ilusão do pertencimento: a cooptação do ressentimento transformada em devoção coletiva.

Percebam que todo fascista teve uma infância difícil. Mas não difícil como qualquer infância. Digo: especialmente difícil. Especificamente difícil. Particularmente difícil. Alguma circunstância para a qual faltou campo simbólico — linguagem — para compreender e acomodar. E alguém recebeu a culpa por essa dificuldade. Alguém que, por algum motivo, ele não podia odiar. Alguém que falhou com ele por ação ou omissão. Por egoísmo ou ignorância. Por maldade ou negligência. E pode ser qualquer coisa: até a própria feiura, quando é o caso, pode ser culpa dos pais “que não fizeram direito”. É sério! E não se pode odiar os pais; "honra teu pai e tua mãe", aprendemos desde cedo.


Fato é que alguém o frustrou. E isso foi se atualizando ao longo da vida numa vasta coleção de ressentimentos recalcados — uma porção de água suja que vai perambular por cada fresta deles até encontrar um ralo para o campo simbólico ou alguma forma de diluição. E o nome que Freud deu para esse movimento solvente foi "retorno do recalcado". É sério! No fim das contas, o fascista é só um pobre filho do diabo que não aprendeu a perder sem culpar alguém — e a quem ainda negaram a capacidade de perdoar. O fascista não passa de um cretino ressentido, um infeliz amargurado.


Membros da Ação Integralista Brasileira na saudação 'Anauê': o fascismo com roupagem nacional, onde a estética do rigor tenta esconder o vazio e a mágoa individual se camufla em projeto coletivo.
Membros da Ação Integralista Brasileira na saudação 'Anauê': o fascismo com roupagem nacional, onde a estética do rigor tenta esconder o vazio e a mágoa individual se camufla em projeto coletivo.

E isso vai atravessar todo o desenvolvimento libidinal dessa galera até o período de latência, onde muito disso encontra um ralo para escoar. O que sobrar seguirá para a fase genital. E eles se tornarão o bando mais diverso de infelizes: broxas, anejaculadores, redpills (e/ou incels), machistas, moralistas (falsos, obviamente), covardes e incontáveis variantes de tudo isso. É sério!


E o que eles têm em comum? "São brancos?", "Heterossexuais?", "Homens?" Porra nenhuma! O único ponto de encontro é o ressentimento. Não passam de um bando de amargurados.


Por fim, por tudo o que deu errado na vida deles, alguém tem que pagar. A fé dogmática, o pânico escatológico e a promessa de uma pureza moral perdida entram para dar um ar sagrado e naturalizar a barbárie. E assim o fascismo torna-se um excelente solvente para diluir tanta mágoa e absorver essa energia ruim que se concentra nos bolsões dos seus genitais.


A dissolução do ressentimento convertida em ruína real.
A dissolução do ressentimento convertida em ruína real.

 
 
 

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